LULINHA NÃO É LULA
Desde tempos imemoriais, na Babilônia, Grécia ou na Roma dos Césares, até hoje, as disputas políticas têm como lugar comum a troca de desaforos e ofensas entre lideranças opostas e seus respectivos seguidores, numa escala que vai de simples achincalhes até a violência mais severa traduzida em atentados e mortes. O essencial é soterrar o adversário numa avalanche de sujeiras e baixarias, onde o engodo e a mentira reinam soberanos.
Isto é válido para qualquer regime político, porém, os seus efeitos são mais devastadores nas democracias, onde as estruturas do poder são erigidas a partir daquilo que o filósofo Jean-Jacques Rousseau denominou como “volonté generale”. A “vontade geral” seria, para ele, a soma de todas as vontades que existiram, que existem e que existirão. Simplificando, pode ser entendida como a soma das vontades de uma parcela substancial da população, naquelas faixas etárias as quais é permitida a participação política ativa ou passiva, votar e ser votado.
Desqualificar o adversário político de todas as formas é um agir muito utilizado nos embates eleitorais. Ao contrário, os atores desses processos, em especial os candidatos, constroem narrativas em que desfiam todos os aspectos positivos de suas trajetórias pessoais e políticas como forma de atrair apoios e votos. Fatos positivos elegem, os negativos derrotam.
A capacidade de criar fatos novos é, pois, fundamental para o sucesso ou fracasso da empreitada político-eleitoral. Aliás, as campanhas eleitorais são vorazes devoradora desses fatos, ou seja, uma situação negativa imposta a um candidato faz com que o seu nome caia nas pesquisas de opinião, podendo, em casos graves até destruir as pretensões políticas imediatas ou mesmo futuras.
Na maioria dos casos, o fato é assimilado e não gera mais prejuízo. Exemplo 1: comprovadamente Flávio Bolsonaro pediu milhões ao escroque Daniel Vorcaro, para financiar o filme “Dark Horse”. Pegou mal e suas intenções de votos nas pesquisas perigosamente despencaram de modo que, por algumas leituras, Lula fecharia no primeiro turno. Um mês depois desse “naufrágio”, a opinião pública assimilou: esse assunto está esgotado.
Exemplo 2: diante da dificuldade de impor diretamente a Lula um escândalo politicamente impactante, seus adversários e a grande mídia conservadora – esta que, aliás, recebe muito dinheiro do governo petista – trouxeram à baila o “affair” Lulinha. Claro, ainda está a causar estragos consideráveis na candidatura de Lula. Se nada de novo mais ocorrer, em poucos dias a virulência política desse fato estará igualmente esgotada.
Acerca dessas supostas traquinagens de Fábio Luiz da Silva, o “Lulinha”, é importante ressaltar que o pai, presidente Lula, tem afirmado que tudo deve ser apurado pela Polícia Federal e se o filho for culpado deve ser punido na forma da lei. É útil lembrar que o então Ministro da Justiça do governo Bolsonaro, Sérgio Moro, perdeu o cargo quando, segundo afirmou, recusou-se a intervir na Polícia Federal para livrar justamente Flávio Bolsonaro no famoso episódio das “rachadinhas”.
Os reveses de Flávio Bolsonaro, sobretudo em razão do caso Vorcaro, tiveram sua participação direta. Ao revés, as agruras do candidato Lula nada têm a ver com algo que possa ter feito negativamente: seriam atuações com lobistas e criminosos do filho Lulinha. Lula, pelo tanto que edificou neste país, não pode ser responsabilizado.
Embora na política rasteira cause estragos, um pai não deveria ser prejudicado pelas atitudes do filho ou de quem esteja próximo, seja esposa, irmão etc. Lamentável que o Princípio da Individualização da Pena, pelo qual a sanção não deve passar da pessoa que praticou o crime, porém, na política isso seja uma prática abjeta na luta política. Enfim, o presidente Lula, até prova em contrário, não deveria pagar politicamente pelo lobismo de seu filho, caso provado e certificado. Afinal, Lula definitivamente não é Lulinha.
